Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

A Vida Religiosa III

Gustavo Corção

“O Globo” – 10/08/1974

Foi num dos anos 40 . A pedido de Alceu Amoroso Lima formulado em abril de 1941, no Mosteiro de São Bento, no dia do Batismo de minha filha Maria Luisa – já assumira eu a vice-presidência do centro Dom Vital e a direção da revista A Ordem, com o apoio de Fábio Alves Ribeiro. Poucos anos depois tive a sorte de adoecer, creio que uma inflamação de vesícula biliar, que me obrigou a ficar meio acamado, e forçado a interromper por alguns dias a cadeia tirânica de aulas e aulas.

Benditas cólicas, naquele tempo já nos abríramos, Fábio e eu, sobre o mal-estar que nos causavam certas singularidades do movimento litúrgico, que não nos soavam como de bom quilate católico . Nessa semana de resguardo, Fábio trouxe-me diversos livros, entre os quais dois volumes de Garrigou Lagrange: Perfection Chrétiene et Contemplation, que me abriram as portas da luminosa síntese do tomismo e do carmelo, colunas místicas católicas erguidas por tão grandes santos: Santo Tomás, Santa Catarina de Sena, São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila, Santa Teresinha do Menino Jesus, lado a lado, e com o mesmo embasamento da grande tradição beneditina que está na base de todo arcabouço místico que se diferenciou naquelas correntes que deram à Igreja o grande esplendor de santidade que até hoje orienta as almas que se gloriam na Cruz de Nosso Senhor.

Aprendi e passei a ensinar durante vinte anos no Centro Dom Vital, que a vida de mais amorosa procura da perfeição é a contemplação, pela qual a alma se deixa conduzir “pela modo dos dons, mais do que pelo trabalho e esforço, no modo das virtudes”. E é nas casa religiosas fechadas em torno do único Necessário, que se realizou melhor esta entrega total que Cristo mesmo define: ‘Maria escolheu a melhor parte “.

E hoje retomando o velho livro do mestre querido, que durante vinte anos ensinou no grande movimento de Meudon, animado por Jacques e Raíssa Maritain, leio a belíssima epígrafe que, deste a primeira página, ilumina a obra inteira: “Optavi et datus est mihi sensus; et invocavi et venit in me spiritus sapientiae” Sab. VIII, 7). “Optei (escolhi, quis) e foi-me dado o senso, o gosto ; invoquei, pedi, e sobre mim desceu o espírito de sabedoria”.

Onde se vê que o dom da sabedoria, que pareceria diretamente e antes de tudo ligado à inteligência das coisa mais altas, aparece-me aqui, antes de tudo e diretamente ligado a um ato de vontade, ato de amor, opção primeira e decisiva da alma. Daí, desse vértice supremo, o dom do dons comandará todos os outros que harpejam as cordas da alma agraciada: dom da inteligência para a mais espontânea e fulmíneo entendimento da palavra de Deus, o dom da esperança, para avivar o gosto das promessas e adestrar a alma no desapego das coisas deste mundo, e lembrar vivamente que “o meu Reino não é deste mundo”, o dom da ciência ligado à Fé e à Esperança que realça o tudo de Deus contra o nada da criatura; e os demais que contemplam a obra do Espírito que em nós opera. O dom dos dons que o termo do livro santo, optavi, prende diretamente à vontade, é aquele mesmo a que se refere Jesus, quando disse que Maria escolheu a melhor parte. Se no frontão de todos os conventos ou na porta de todos os religiosos devêssemos escrever uma só palavra, creio que nenhuma mais seria mais própria do que esta: OPTAVI.

 

Gustavo Corção

admin • 7 de fevereiro de 2012


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