Mosteiro da Santa Cruz

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MODOS DE TER RELIGIÃO QUE EQUIVALEM A NÃO A TER

Dom Félix Sardá y Salvany

Tradução: Leticia Fantin Vescovi

O homem, diga-se o que quiser, é naturalmente religioso e, como disse Tertuliano, sua alma é naturalmente cristã. O ateísmo cru e desavergonhado é repulsivo por si próprio, e somente depois de muita corrupção e embrutecimento de seu coração o homem consegue torná-lo familiar e conatural. Por necessidade, pois, hão de ser poucos os ateus francos e descarados. Dá uma olhada ao teu redor e tu te convencerás desta verdade.

Mas o diabo, grande mestre de artimanhas, não parou até inventar e encontrar um modo que transformasse em verdadeiros ateus uma multidão de homens que se espantariam só com a palavra se lha chegassem a propor. Sim, senhor! Inventou o maldito certas formas de encoberto e vergonhoso ateísmo, com as quais ele tem em suas garras os desgraçados que se deixaram apanhar pelo laço, sem que eles mesmos se espantem, se embaracem, se deem conta, talvez, de sua situação miserabilíssima.

Tais formas de ateísmo disfarçado e vergonhoso, e muitas vezes inconsciente, são as que chamo aqui de modos de ter religião que equivalem a não a ter. E são, à primeira vista, três, às quais todas as demais podem se reduzir.

1º – Crer na religião, mas não praticar ato algum dela.

2º – Crer e praticar algo da religião, mas não a crer ou a praticar por completo.

3º – Praticar os atos da religião somente para parecer bom ou por outro motivo meramente natural e humano.

Eis aqui os três disfarces mais comuns do ateísmo vergonhoso, mais por desgraça do que muitos costumam imaginar. Um após o outro iremos apresentando aqui à guisa de refutação.

Vejamos o primeiro.

Dizer que crê na religião, mas não praticar ato algum dela.

É a forma mais comum do ateísmo vergonhoso que reina em nossa sociedade. Milhares de indivíduos não sentem ódio algum ao catolicismo, nem a seus dogmas, nem a seus preceitos, nem a seus ministros. Mais ainda: se perguntas à maior parte deles sobre sua religião, te dirão sem embaraço que são cristãos, e até se irritarão se tu lhes negas este título. E, contudo, não vão à missa aos domingos, porque, é claro, a manhã de domingo já está um tanto ocupada; nem jejuam nos dias de preceito, porque isso é coisa de padre e de freira; nem confessam nem comungam na Quaresma, porque essas banalidades são para as mulheres; nem rezam um minuto ao dia, porque essas coisas a mãe bem lhes ensinou quando eram pequenos, mas eles as esqueceram depois, na juventude. Crer? Ah, sim, isso sim, creem em tudo perfeitamente! Alguma vez lhes ouviram negar alguma coisa? Se bem que, para dizer a verdade, tampouco afirmá-la? De cabo a rabo afirmarão toda a profissão de fé que há no Ritual da Igreja, ainda que não saibam nada do que se diz nela. E não lhes venham com histórias de missa, de jejuns ou de sacramentos, pois que não querem ser beatos, ou, no máximo, guardam isto para a velhice.

Os tais são ateus práticos em toda forma, e a seu ateísmo só falta um rótulo que o chame assim. Religião que não se pratica não é religião, porque a religião ou é coisa prática ou não é nada. Pode-se ser um matemático muito bom somente em conhecer teoricamente a matemática, porque esta, como outras, é ciência especulativa que basta professar com o entendimento. Mas assim como não será sapateiro quem não faça sapatos, nem carpinteiro quem não trabalhe na madeira, nem pintor quem não maneje o pincel, também não é cristão quem não pratica obras cristãs, por mais que em seu interior diga que crê e que pensa como manda crer e pensar o cristianismo. Crer e obrar exige a lei. Crer é o fundamento, obrar é o edifício: e ninguém dirá que é construção perfeita a que conste somente de cimento sobre o qual ninguém se preocupou em edificar. Aquele que tem somente crença, uma vez que a tenha firme e verdadeira, porque mesmo disto se pode duvidar, nada tem se não acrescenta a ela as obras que serão sua consequência necessária. Um Apóstolo disse isto com frase de irrecusável autoridade: A fé sem obras é morta.

Vamos ao segundo.

Crer e praticar algo da religião, mas não a crer nem a praticar por completo.

Este é o segundo dos disfarces com que se costuma encobrir o ateísmo de certas pessoas, e é o que em outra parte chamamos de a meia religião. Alguns pegam do catolicismo, tanto de seus dogmas quanto de suas práticas, não o que este prescreve, mas o que a eles se acomoda, guiando-se não pela autoridade soberana da fé, mas segundo seu espírito privado, talvez por mera afeição ou capricho ou humor. Assim, creem em Deus e na Virgem, mas não na infalibilidade do Papa, que é tão dogma de fé quanto os dois primeiros; admitem o Céu e o Inferno, mas riem do Purgatório; confessam que há de se ir à missa nos dias de preceito, mas não que em outros dias igualmente preceituados se tenha de jejuar. Portam-se eles com certa autoridade independente acima do catolicismo, e dizem com uma desenvoltura sem igual: “Até aqui acho que está bom para mim; até lá, nem tanto; tal coisa admito sem pestanejar; esta outra não me desce de jeito nenhum”. Eles não reparam que, agindo com este critério, não são católicos “nem aqui nem na China”, senão que perfeitíssimos livres-pensadores.

Ora, religião assim mutilada e em farrapos não é a verdadeira religião. Não é a fé de Cristo, que exige a submissão absoluta: é fé humana a gosto do consumidor. A religião tem igual força de obrigar numa coisa e outra, entre as quais declarou obrigatórias. Supor que é falsa em algo, por mais que este algo seja tão pequeno como ponta de alfinete, é tomá-la por embusteira até em seus dogmas fundamentais. Ou em algo me pode enganar, ou em tudo me diz a verdade. E se em algo me pode enganar, não devo crê-la em nada; e se em tudo me diz a verdade, devo crê-la em tudo. Isto é o lógico e nada mais.

Quando, pois, nos assalte uma dúvida sobre algo de religião, convém averiguar se aquele ponto é livre ou de fé obrigatória. Se é o primeiro, estuda-se e decide-se pelo que aconselha as razões mais fortes. Se é o segundo, admite-se-lhe incontinentemente e sem vacilação. Deste modo se é católico; de outro modo não se passa de pobre racionalista. Também há sobre isto, nas Escrituras, sentença decisiva: Ainda que alguém guarde toda lei, se rechaça um de seus mandamentos, vem a ser réu de todos.

Eis aqui o terceiro.

Praticar os atos da religião somente para parecer bom ou por outro motivo meramente natural e humano.

É o terceiro e mais sutil invólucro com que se disfarça o ateísmo no mundo atual, e por isto temos de consagrar-lhe maior atenção. A alma de toda obra moral é a intenção ou o motivo formal que a vivifica. Por conseguinte, por mais recomendável que seja um ato, ele perde toda essência e valor se o motivo que interiormente o anima não é bom e legítimo como deve ser. Assim, as obras de religião devem ser praticadas por Deus, para obedecer a Deus, para honrar e servir a Deus. Se se exclui esta intenção, deixam de ser obras religiosas e são rebaixadas à categoria de obras meramente humanas e, ainda, mera hipocrisia. Venham os exemplos, que estes mais que as regras ilustrarão a questão.

Praticar as obras de religião somente para não se diferenciar dos demais, ou para lhes agradar, ou para não ser taxado, não é religião, porque não é servir a Deus, mas servir àquele fulano ou sicrano ao qual se trata de não descontentar.

Praticar as obras de religião puramente por profissão ou ofício a fim de ganhar com isto o sustento material, ou com aspiração ambiciosa de prosperar no mundo e adquirir um posto elevado ou até certo renome entre as pessoas não é ter religião, porque não é servir a Deus, mas servir à cobiça, à ambição ou à vaidade, isto é, ao miserável eu.

Praticar as obras de religião e recomendá-las somente como meio humano para deter as massas (como hoje se diz que se faz), pregando que a tranquilidade pública necessita do contrapeso poderoso das ideias religiosas; que sem religião não há respeito possível para a vida nem para a propriedade, fazendo da religião um mero guardamonte das propriedades ameaçadas pelo socialismo, ou uma simples bomba de auxílio nos momentos críticos de conflagração social, sem levar em conta para nada os interesses espirituais, que são os primeiros, sem pensar em Deus, na alma e na outra vida… tampouco é ter religião, porque isto não é servir a Deus, mas aos interesses materiais, como lhes servem o policial ou o guarda civil. Secundariamente, é claro que a religião também serve a isto, mas o primeiro nela deve ser a glória de Deus e a salvação da alma.

Praticar a religião somente pelo consolo ou bem-estar sensível que nela se encontre, pelas emoções que causa o culto, pela beleza de suas cerimônias, pela poesia de suas festas, pela grandeza de suas lembranças, por sua civilizadora influência na humanidade… tampouco é ter religião ou piedade, é somente ter pietismo e sentimentalismo humano, que não é, por certo, coisa igual. A poesia da religião é somente seu aroma exterior, e assim como não se diria que se alimenta de um manjar aquele que se contentasse em aspirar seus aromas, também não se pode dizer que tenha religião aquele que reduzisse todo seu catolicismo a recrear-se com a fragrância das obras católicas. Também há sobre isto, nas Escrituras, um texto que pode servir de punhal ou golpe de misericórdia a esta parte da questão: Nem todo aquele que me diz “Senhor! Senhor!” entrará no reino dos céus (disse Jesus), mas aquele que vive e obra conforme a vontade de meu Pai celestial.

Como se vê, amigo leitor, sobram ateus no mundo mesmo entre as pessoas que mostram ter certo horror a esta palavra. São ateus práticos, mas de que outro modo viveriam se fossem ateus até em teoria? Pela prática baseada na fé nós seremos julgados. Mas que importa ao diabo se prática ou teoricamente irão ao inferno os que ele deseja conduzir até lá? Como eles irão de um modo ou de outro, ele faz seu agosto negro, pois que isto ele leva em conta e nada mais. Sobretudo quando esta maneira de se condenar, suave e mansa, e até certo ponto decente e honrada, oferece a vantagem de não espantar a caça que com outros modos mais desavergonhados talvez não se deixasse apanhar. Estamos em tempos em que não é a impiedade feroz e aberta a que mais devemos temer, mas a mansa e compungida, que é a pior. Mais me espanta o ateísmo dos homens honrados, ou dos que se chamam assim, que o feroz e vociferador dos mais fogosos revolucionários. Aquela frase de muitos – “sou honrado!” –, fez condenar mais almas do que todos os crimes que se registram em todos os códigos. Aquele “sou honrado!” é o adormecedor de muitíssimas consciências, o paliativo de muitíssimas iniquidades, o verdadeiro ídolo que muitos interpuseram entre seu coração e seu Deus, para que não O vissem, não O amassem e não O obedecessem como é devido. Com este “sou honrado!” se pretende justificar toda indiferença, toda apostasia, toda impiedade formal. O ateísmo nunca soube encontrar um disfarce mais cômodo e que mais bobos pudesse enganar. Não, não se é honrado se não se tem religião; e não se tem religião se não se a pratica; e não se a pratica se não se a pratica toda e por seu verdadeiro motivo formal. Lúcifer foi o primeiro honrado deste tipo e não fez mais em substância que se rebelar contra Deus. Só por isso (só por isso!) foi e é o primeiro condenado.

Ah, meu amigo! Cuida que não sejas tu um dos tais honrados, decentes e de boa reputação que, por ter religião em um destes modos que equivale a não a ter, há de chorar por toda uma eternidade!

Catequese

admin • 22 de fevereiro de 2017


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