Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: São João Batista (2015)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
São João Batista 2015

Hoje a Santa Igreja festeja o maior de todos os profetas, o precursor, São João Batista, que não só predisse a vinda de Nosso Senhor, que não só o anunciou de longe, mas o viu, o tocou, o batizou e lhe deu seus primeiros discípulos.

São João Batista é o modelo ao mesmo tempo dos contemplativos e dos pregadores que preparam ao Senhor um povo perfeito por sua doutrina, advertência e exemplo. “Ele ia adiante com o espírito e a virtude de Elias para preparar um povo perfeito ao Senhor”, cantamos nós na primeira antífona de Vésperas de ontem.

Ora, nosso fundador, o Rev. Pe. João Batista Muard, nos deu São João Batista como modelo. Semelhante a São João Batista no nome e no modo de vida, Pe. Muard era um padre zeloso que já havia fundado uma pequena congregação de missionários quando, caminhando por uma estrada e fazendo oração, Nosso Senhor lhe apareceu e lhe mostrou o plano de uma família religiosa que reuniria a vida monástica e a pregação.

Sem saber se aquela visão vinha de Deus verdadeiramente, ele fez vários retiros, consultou vários padres eminentes e resolveu ir a Roma a pé para ter a resposta junto ao sucessor de São Pedro, ou seja, junto a Pio IX. Acompanhado de dois companheiros, ele passou em Ars e ouviu da boca de São Cura d’Ars estas palavras: “Sim, sim, é a vontade de Deus. Deus certamente o quer. É a vontade de Deus”. E o Santo Cura d’Ars acrescentou, falando a um dos companheiros de Pe. Muard: “Vá, meu filho, siga-o. Deus o cumulará de graças. É a vontade de Deus”.

Na Itália, o Pe. Muard tentou entrar nos franciscanos, pois não sabia ainda que regra adotar, mas não era esta a vontade de Deus. Falaram-lhe de Subiaco, e lá foi ele para a gruta onde viveu São Bento e para junto do abade que o recebeu como um enviado de Deus. Lá, depois de um longo e austero retiro, ele compreendeu que Deus lhe pedia para adotar a Regra de São Bento, como se ele a recebesse das mãos mesmas do Santo Patriarca. Foi então consultar Pio IX, que o encorajou dizendo: “Vá, meu filho, faça tudo isso. Mas não mate o irmão asno (modo familiar e carinhoso de designar o pobre corpo que o Pe. Muard tratava bem duramente). Vá e depois nós acertaremos tudo. Faça isso”. Pio IX estava conquistado pelos argumentos e pela santidade de Pe. Muard.

Num século dominado pelo orgulho, que não reza e deseja só prazer, o Pe. Muard queria uma congregação que praticasse a penitência, a humildade e a pobreza, numa vida pobre, humilde e mortificada. Ele estabeleceu o silêncio perpétuo como nos trapistas, onde, aliás, ele fez seu noviciado antes de poder fundar seu mosteiro de Santa Maria da Pierre-qui-Vire.

O horário era deitar às 8h da noite e levantar às 3h da manhã para as Matinas. O trabalho manual era duro. “A pele devia ficar no cabo das enxadas e das picaretas”, comentava mais tarde Dom Romain Banquet, que seria aquele que terminaria a obra de Pe. Muard, pois este morreu quatro anos após a fundação da congregação. Morreu com grande fama de santidade e muitos milagres lhe foram atribuídos. Sua congregação cresceu muito após sua morte, aliando a vida contemplativa à vida ativa.

“Vigiai e permaneceis estáveis na fé”, diz o capítulo de Matinas nos dias feriais. “Agi virilmente e sejais fortes. Tudo fazei na caridade”. Eis aí o programa de nossa vida. Agir virilmente na fé e na caridade. “Meus olhos antecederam a luz do dia para meditar as vossas palavras”, diz o salmo. Eis o que faz o monge levantando-se para Matinas. “Escutai minha voz segundo vossa misericórdia, Senhor, e, segundo vossa justiça, dai-me a vida”. “Vós estais perto de nós e todos os vossos caminhos são verdadeiros”. “Que meu pedido se aproxime de vossa presença, Senhor, e dai-me a inteligência de vossos ensinamentos”. Eis o que pede o monge para depois poder ensinar aos outros, pois o Pe. Muard nos quis missionários que, como os reservatórios de água, primeiro ficam cheios e depois alimentam as casas dos homens como a palavra de Deus alimenta as almas.

Pe. Muard morreu exclamando “As almas! As almas! Vamos salvar as almas!”.

Que São João Batista nos obtenha a graça de sermos fiéis a nossa missão, que foi antes de tudo a sua de conduzir as almas a Nosso Senhor Jesus Cristo:
Nosso Salvador,
Nosso Redentor,
Nossa Vida,
Nosso Deus.
Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

São João BatistaSermões Monásticos

Arsenius • 28 de junho de 2017


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