Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 10º Domingo depois de Pentecostes (2014)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
X Domingo depois de Pentecostes 2014

Humildade e orgulho. Toda a história da humanidade está resumida nesta oposição. A humildade obtém a graça divina, o orgulho afasta a graça divina.

São Bento resume toda a espiritualidade monástica no seu capítulo sobre a humildade, o capítulo sétimo da regra.

É impressionante vermos a correspondência entre a Santa Regra e o Evangelho de hoje. São Bento escreve sobre o último grau da humildade: “O duodécimo grau consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o veem, isto é, que no ofício divino, no oratório, no mosteiro, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tendo-se como diante do tremendo juízo de Deus, dizendo a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: ‘Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus’. E ainda, com o profeta: ‘Estou completamente curvado e humilhado’.

Espantoso, não? “Exagerado mesmo”, ousará pensar o mundo moderno… e, nós mesmos, não pensaríamos um pouco assim? São Bento é do século VI e nós do século XXI. Isto hoje seria anacronismo, seria um pouco teatral, um pouco estranho. Nem tanto, caríssimos irmãos.

Vejamos um exemplo recente. Na biografia de Mons. Lefebvre, Mons. Tissier de Mallerais escreve: “Em Écône, ele ia e vinha pelos corredores do seminário com um passo rápido e tranquilo e com os olhos modestamente voltados para baixo”. E não só nos corredores, pois Mons. Tissier assim o descreve nas conferências espirituais: “Sentava com uma postura reta sem apoiar-se sobre o encosto da cadeira, com os pés juntos, as mãos igualmente juntas e postas sobre a mesa, e com os olhos voltados para baixo”.

Poderíamos pensar que era uma pose, uma aparência forçada. Nada disso. Mons. Tissier nos diz: “Tudo isso sem a menor rigidez, com uma naturalidade e uma simplicidade que irradiava a paz”. Eis aí o que queria São Bento. Eis aí o que contrasta tanto com os modos do mundo moderno que está sempre procurando o que alimenta o orgulho – como o fariseu que não olhava para baixo nem tinha o seu coração humilhado, mas eu pensava ser melhor do que o pobre publicano que batia no peito dizendo: “Senhor, tende piedade de mim, pobre pecador”.

O mundo moderno quer ver tudo como Eva, que olhou para o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, o fruto proibido, e o considerou bom para comer e formoso aos olhos, que pegou-o e o comeu e deu a seu marido que também o comeu. O mundo moderno faz o mesmo. Ele olha, ele lê, ele pensa, ele apoia tudo o que Deus proibiu e ele o dá aos outros, nas escolas, na televisão, nos meios de comunicação. Pobre mundo.

Mas procuremos mais a fundo a essência da humildade. São Bernardo nos dá sua definição ao dizer que ela é a virtude que nos faz nos desprezar em razão de um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. Desprezar-nos a nós mesmos, isto é, nos pôr no nosso lugar, ou seja, o último, como o publicano do Evangelho. O publicano do Evangelho se conhecia a si mesmo e se conhecia bem, por isso não levantava os olhos; por isso não batia no peito; por isso dizia “Meu Deus, tende piedade de mim, pobre pecador”.

É exatamente o que a Igreja ensina o padre a fazer na missa. Na missa, no início da missa, o padre se põe no último degrau e ali, sem levantar os olhos, ele se inclina e diz o Confiteor, e bate no peito dizendo: minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. E todos os fiéis fazem o mesmo.

Assim a Santa Igreja nos ensina os gestos, as atitudes da humildade, e Nosso Senhor na santa comunhão vem nos comunicar no íntimo do coração esta virtude que é, sobretudo, uma virtude interior.

A humildade é causada em nós pela reverência que devemos ter para com Deus. A liturgia da Igreja é toda ela inspirada pela reverência. Nós comungamos de joelhos por reverência para com Deus Nosso Senhor. Não se deve olhar para os lados na capela, nem falar, nem cochichar, por reverência para com Deus. Quanto maior a reverência, maior é a humildade; e quanto maior é a humildade, mais Deus atende a nossas súplicas.

São Paulo nos diz que Nosso Senhor foi atendido nas suas súplicas por causa de sua reverência. Nossa Senhora é sempre atendida por causa de sua reverência. Mas para termos reverência é preciso conhecer a Deus.

Por isso que tudo, nas virtudes, tem sua raiz na Fé. É a Fé que nos revela a grandeza e a misericórdia de Deus. Por causa da grandeza de Deus, o publicano não ousa levantar os olhos. Por causa da misericórdia divina, ele ousa dirigir a Deus o seu pedido.

Ora, no mundo moderno onde reina o liberalismo, a reverência para com Deus desapareceu. A reverência para com os pais que representam a Deus desapareceu igualmente. A submissão da esposa em relação a seu marido também desapareceu, lá onde reina o liberalismo.

O liberalismo é o fariseu do Evangelho. É o mundo moderno que olha com desprezo para os séculos passados e diz: “Eu não sou como os séculos de trevas da Idade Média. Eu sou a modernidade, nascida com a Revolução Francesa. Eu sou a modernidade que triunfou com o Concílio Vaticano II”. Pobre mundo moderno, que se gloria quando devia se humilhar!

O mundo moderno se crê mais adiantado, mais rico, mais sabido do que os séculos passados. Que ilusão! Que triste ilusão! Onde ela terminará? Quando ela terminará? Ela terminará quando o véu que cobre os olhos dos homens de hoje cair, e então eles verão que eles não são senão criaturas e que só Deus é tudo.

Foi o que aconteceu no tempo de Noé. Os homens riam de Noé, riam da arca que ele construíra, como eles riem hoje do dogma “Fora da Igreja não há salvação”. Mas vieram as chuvas e a água começou a subir. Então muitos deles perderam o seu orgulho e se arrependeram, e bateram no peito como o publicano e disseram: “Senhor, tende piedade de nós, pobres pecadores”. Os que agiram assim se salvaram, mas os que permaneceram no seu orgulho se perderam, perderam suas almas, perderam a vida eterna para sempre e foram para o Inferno, por causa do orgulho.

O orgulho é também chamado soberba, porque o orgulho quer se por acima do que ele é: sobre, soberba, acima de. O soberbo por excelência é Lúcifer, que não quis se submeter a Deus. O soberbo se opõe a Deus porque se põe no lugar de Deus.

Nosso Senhor, ao contrário, é o humilde por excelência porque Ele Se submeteu ao Pai. “Pois, se possível, que este cálice passe sem que Eu o beba, mas não seja feita a Minha vontade, mas a Vossa”. Nosso Senhor foi submisso ao Pai e bebeu o cálice da Paixão. Sejamos nós também submissos à Igreja que Ele deixou na Terra para nos guiar; submissos aos ensinamentos da Igreja verdadeira, e não à Igreja conciliar, que não é a Igreja, mas que é outra coisa, como diz Gustavo Corção; submissos à Virgem Santíssima, que nos pede para rezarmos o terço todos os dias.

Assim voltaremos para casa justificados, como o publicano do Evangelho, porque Deus nos dará Sua graça, pois está dito: “Deus dá Sua graça aos humildes e resiste aos soberbos”. Assim seja, para nós agora e para sempre.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

PentecostesSermões Monásticos

Arsenius • 13 de agosto de 2017


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