Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 16º Domingo depois de Pentecostes (2012)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
XVI Domingo depois de Pentecostes (2012)

“Todo o que se humilha será exaltado e todo o que se exalta será humilhado”.

Eis aí a base, a constituição, o fundamento de nossas relações com Deus. São Bento põe esta base como fundamento de toda a Santa Regra.

Ele supõe, é claro, que o fundamento da Fé já foi posto. Ele supõe, é claro, que o que se apresenta às portas do claustro é um homem de Fé, que crê em Nosso Senhor Jesus Cristo, que crê na Santíssima Trindade, que crê na Santa Igreja, que não se deixa levar nem pelo modernismo, nem pelo liberalismo, que ele não conheceu, exclama do claustro, mas que está incluído em seu pressuposto toda a heresia passada, presente ou futura.

São Bento supõe tudo isto já sabido, já confirmado, já resolvido. São Bento quer estabelecer uma escola do serviço do Senhor e nessa escola ele supõe o vestibular da catequese, o vestibular da Fé, já concluído.

Isto externado e, pois, resolvido, ele vai nos mostrar como, para se elevar às montanhas da santidade, é necessário descer ao vale da humildade.

Ele vai nos tomar pela mão e nos conduzir a este vale que se parece com a escada que em sonho viu Jacó, ao lado da qual subiam e desciam os anjos. Nesta escada, se sobe descendo e se desce subindo. Sobe-se descendo porque o humilde desce pela humildade e Deus o exalta, isto é, o faz subir pela sua graça, já que Deus dá a sua graça aos humildes. Aos soberbos, porém, Deus os rebaixa, retirando-lhe a sua graça na medida em que eles sobem pelo orgulho. Nesta vida, quem não viu homens como Jó, humilhados aos olhos dos homens, mas (e é o que está escondido aos olhos dos homens) elevados diante de Deus? Não ficou humilhado diante dos homens Aquele que na cruz disse estas palavras: “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonastes?”? Não estava Ele, ao mesmo tempo, mais elevado do que toda a criatura Aquele que pela sua morte reconciliava o Criador com os pecadores?

Foi por isso, por causa de sua humildade até a morte e morte de cruz, que Deus o exaltou acima de todo nome para que todo joelho se dobrasse diante de Jesus Cristo, no Céu, na Terra e nos infernos.

Mas vejamos melhor como se sobe e como se desce nesta via que decidirá nossa eterna salvação ou nossa eterna danação. Doze graus estabeleceu São Bento para a humildade. Doze graus estabeleceu São Bernardo para o orgulho. Vejamos uns e outros e ponhamos em paralelo cada grau:

1º grau da humildade – a presença de Deus.

O humilde, com temor, lembra-se sempre que Deus o vê.

“Não me lembro de ter ficado nunca mais do que três minutos sem pensar em Deus”, disse Santa Teresinha. “Anda na presença de Deus”, foi dito aos santos profetas. Ora, o que é o primeiro grau na humildade é o último no orgulho. O que é o começo de perfeição para a alma que sobe é, contrariamente, a consumação de todo mal, no que desce. Isto é, o último grau do orgulho é o esquecimento de Deus, o costume visceral e total de não pensar nunca em Deus.

Grau que fará o fundo da consciência do Anticristo e que começa a ser o fundo da consciência de um número cada vez maior de nossos contemporâneos que não pensam mais em Deus, que não pensam mais em Nosso Senhor Jesus Cristo e na divindade, que excluíram, expulsaram toda lembrança do Santíssimo Nome de Deus de suas consciências.

Logo, estes graus da humildade e do orgulho seguem uma ordem inversa. Vamos, para maior clareza enunciá-los todos e comecemos pelos da humildade.

1º grau – presença de Deus, lembrança de que Deus nos vê a todo momento.

2º grau – não amar a própria vontade.

3º grau – submissão ao superior com inteira obediência.

4º grau – paciência no exercício de obediência, suportando até mesmo toda a sorte de males.

5º grau – não esconder ao abade os maus pensamentos e sugestões do demônio, mas revelá-las com simplicidade e humildade.

6º grau – estar contente com tudo o que há de mais vil, pobre e humilde, considerando-se indigno do que recebe e do que é pedido fazer.

7º grau – considerar-se inferior e mais vil do que todos, não só de boca, mas de coração.

8º grau – seguir em tudo a Regra e os exemplos dos antigos.

9º grau – não falar até ser interrogado.

10º grau – não ser pronto e fácil ao riso.

11º grau – falar com suavidade e sem riso, com humildade e gravidade.

12º grau – ter a humildade em todo o seu porte, tendo os olhos baixos, considerando-se já no tremendo juízo de Deus.

Ao monge que assim proceder, São Bento promete chegar rapidamente à perfeição de caridade e a esta dilatação do coração que torna tudo fácil, pois quem ama não pena, e se pena, ama na pena.

Vejamos agora os graus do orgulho, enumerados por São Bernardo. São Bernardo inverte a ordem dos graus da humildade e mostra que o orgulho começa por onde São Bento põe o último grau da humildade, ou melhor, a última pincelada, o último acabamento, a bela obra da humildade. Isto se entende, pois o orgulhoso, após ter recebido a graça, vai descer do alto para baixo. Lúcifer esteve no alto e começou a descer. Adão esteve no alto e começou a descer. Vejamos esta terrível descida para termos horror dela.

Os graus da humildade descritos por São Bento terminam com o porte exterior, porte humilde, olhos baixos, recolhimento.

São Bernardo vai então começar por aí a descida do orgulho.

O 1º grau será então a curiosidade.

É o contrário dos olhos baixos. Será o olhar altaneiro que quer saber de tudo, do que deve e do que não deve.

São Pio X dizia que a curiosidade era suficiente para explicar as heresias e em particular o modernismo. A curiosidade é um começo de orgulho. Eva também ficou curiosa em saber o que o demônio dizia a ela.

O 2º grau é a leviandade.

Onde São Bento põe gravidade para o humilde, São Bernardo põe, com razão, a leviandade para o orgulhoso. O orgulhoso não tem nada de grave, nada de sério.

O 3º grau é a alegria tola.

O estulto eleva a voz quando ri. O orgulhoso se alegra com o que não devia. Ele se alegra com os triunfos do mal, com a impureza, com as histórias obscenas.

É o próprio do progressismo que não respeita as tradições apostólicas, nem os ensinamentos infalíveis de um São Pio X, Pio IX, Leão XIII, Pio XI e de toda a Tradição da Santa Igreja. O orgulho conduz à singularidade, o pecado tão fácil de cairmos, pecado que o mundo aprecia, pois o mundo gosta de novidades e não lhe apraz a verdade, não lhe apraz aquilo que Deus estabeleceu para sempre.

Assim, hoje temos tudo novo: Missa Nova, Nova Teologia, novos ritos para os sacramentos, mas São Paulo já nos advertia que viriam homens que não suportariam a sã doutrina e amariam as novidades.

O 6º grau é a arrogância.

O arrogante não está contente com o tratamento que lhe dispensam. Ele, ao contrário do humilde, se considera melhor do que os outros, como o fariseu que desprezou o publicano.

O 7º grau é a presunção.

Como o arrogante, o presunçoso se crê digno de um tratamento de marca, e não se acomoda com uma condição humilde dentro do mosteiro, ou em qualquer lugar.

O 8º grau é a defesa de seus pecados.

Enquanto São Bento pede ao monge humilde que revele a seu abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração e o mal que possa ter cometido ocultamente, o orgulhoso não só não revela ao seu abade as suas faltas, mas as defende.

Defender o mal que se faz é o próprio dos modernistas, que defendem o Vaticano II, que defende a maçonaria, de todos aqueles que estão dominados pelo espírito de orgulho do qual nenhum de nós está inteiramente protegido, já que facilmente isto acontece conosco, ao menos, em pequenas coisas, ao menos num primeiro movimento “instintivo”.

Mas a humildade faz o homem agir de forma diferente e se acusar a si mesmo.

O 9º grau é a confissão dissimulada.

O orgulhoso quer passar por humilde e se torna um simulador ou enganador. Assim, ele é um lobo em pele de cordeiro.

O 10º grau é a rebelião.

Lúcifer se rebelou contra Deus. Ele disse: “Non serviam” – “Eu não servirei”. O modernismo e o liberalismo se rebelaram contra a Igreja e contra Deus e disseram “Eu não crerei nos milagres, no inferno, na Ressurreição de Nosso Senhor”. “Eu não quero mais o reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo”. O Vaticano II foi o Concílio da rebelião contra a Igreja. É por isso que ele é o maior desastre da história da Igreja desde a sua fundação.

O 11º grau é a liberdade de pecar.

É o que é a liberdade religiosa sob aparências enganosas, a liberdade de pecar, de aderir ao erro e propagá-lo.  Hoje os gays reivindicam a liberdade de pecar. Por aí eles manifestam o orgulho que conduz o mundo à sua ruína e ao fundo do inferno.

O 12º grau é o costume de pecar, ou seja, o último grau do pecado.

A alma se instala no mal como fará o Anticristo que silenciará a voz das consciências para melhor se entregarem ao mal. O costume no mal não se faz sem o esquecimento total de Deus. É o que prevê São Pio X na Pascendi. Ele diz no final de sua imortal encíclica, após ter destrinchado os erros modernistas e suas causa: “Isto já é bastante para bem nos certificarmos por que caminhos o modernismo conduz ao aniquilamento da religião. Neste caminho os protestantes deram o primeiro passo, os modernistas o segundo, o próximo será o de completo ateísmo”.

Ou seja, a instalação definitiva no mal, no esquecimento total de Deus. Assim, hoje muitos bebem o pecado com a naturalidade com que se bebe água. O que é isto senão que a consumação do orgulho que expulsa Deus da consciência e faz o orgulhoso se fixar no mal, como o demônio o está?

Porém, enquanto o homem está nesta vida, é possível ele se converter. Rezemos, pois, por todos e não cessemos de fazer o bem a todos, sabendo que devemos vencer o mal não com o mal, mas com o bem, como nos ensina São Paulo.

Este bem, com o qual devemos vencer o mal, não exclui a luta, muito pelo contrário. Alguns se escandalizaram de que Dom Williamson tenha vindo ao mosteiro e dizem que as confirmações aqui realizadas foram ilícitas. É um equívoco. A atitude de Dom Williamson é uma reação a um desvio na confissão de Fé, e talvez mesmo um desvio na Fé da parte de Dom Fellay. Contra isto é necessário reagir e defendes os fiéis. Se alguns têm certos meios de proteger os fiéis, que nos avisem, mas que não ataquem Dom Williamson, que vem ao socorro das ovelhas de Salvador, Vitória, Maringá e Nova Friburgo. Nem todos podem compreender as causas desta crise e o que se passa atualmente. Diremos algumas palavras no catecismo.

Mas guardemos presentes no espírito o que diz São Bernardo: “A apologia do erro, do pecado é o oitavo grau do orgulho”. Ora, os que defendem de uma maneira ou de outra ou que atenuam a gravidade do erro e acabam induzindo os fiéis ao erro, estes devem ser combatidos, com a moderação que se impõe. E crismas é, nas circunstâncias atuais, um ato de defesa da Fé, um ato de caridade e, portanto, um ato não de orgulho, nem de revolta, mas de obediência e humildade.

Que a Virgem Maria, que venceu todas as heresias em todo o mundo por sua humildade, nos ensine esta verdade e nos livre do golpe de mestre de Satanás, que quis por as virtudes a serviço do mal. Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

Arsenius • 24 de setembro de 2017


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