Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 17º Domingo depois de Pentecostes (2012)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
XVII Domingo depois de Pentecostes (2012)

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito”.

Este é o maior e primeiro mandamento. O segundo lhe é semelhante: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Nestes dois mandamentos, se resume toda a lei e os profetas. Eis aí o resumo de tudo. Eis aí toda a vida da alma. Eis aí todo o coração de Nosso Senhor que não teve outra regra e nunca terá outra, senão amar o seu Pai de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu espírito.

E o que é a caridade? A caridade é uma amizade entre a criatura e o Criador. E o que é a amizade? A amizade é um amor recíproco de benevolência. Recíproco porque na amizade aquele que ama é também amado. Amor de benevolência porque na amizade se quer o bem do amigo, caso contrário, trata-se de uma falsa amizade. Se numa amizade eu não procuro o bem do meu amigo, então não há verdadeira amizade.

Assim, a caridade nos faz querer consolar o Sagrado Coração de Jesus porque nós queremos vê-lo consolado, queremos o seu bem. Se nós só queremos o nosso bem e não o de Deus, então nossa caridade não é caridade. É um amor, talvez, mas amor de si mesmo e falso amor de si mesmo.

Entre os capuchinhos, eles têm esta bela expressão que eles usam para agradecer um serviço prestado por um irmão: “Que a vossa caridade seja por amor de Deus”; isto é, que ela seja verdadeira, que ela seja um ato de verdadeira amizade sobrenatural.

Mas para que haja uma amizade há ainda algo a acrescentar. A amizade está fundada numa vida em comum. “Fostes chamados, diz São Paulo, à sociedade de seu Filho”. Sociedade com o Filho e também com o Pai e o Espírito Santo. Nosso Senhor nos deu possuir em comum seu próprio Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele nos elevou até sermos participantes da natureza divina, como diz São Pedro. Este é o fundamento desta sociedade, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por isso, São Paulo nos exorta para que nossa conversação, isto é, nossa vida, esteja no Céu, isto é, em Deus.

Nós estamos na Terra, mas nossas almas não devem estar na Terra. Elas devem viver esta vida de união com Deus que é a vida da caridade. O que é a vida contemplativa, senão o comércio tranquilo da alma com Deus, como dois amigos que se alegram por estarem juntos, conversando um com o outro.

De Moisés está dito que ele falava com Deus como um amigo costuma falar a seu amigo. Frequentemente Lúcia e Jacinta, quando iam levar os rebanhos de seus pais para pastarem, se davam conta da falta de Francisco, irmão de Jacinta. Chamavam por ele, e quando o encontravam a sós a rezar, perguntavam o que fazia ele, e ele respondia que queria consolar a Deus. “O que mais o impressionava”, conta Lúcia, “era Deus, a Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma, na hora das aparições”. E ele dizia: “Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos queimávamos. Como é Deus! Não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!…” Eis aí a verdadeira caridade. Francisco a possuía, ele que queria consolar a Deus.

Uma imagem deste amor por Deus a vemos no matrimônio. Ali um é para o outro e tudo é comum, quando o casamento é feito com comunhão de bens. Se a caridade reina num casal verdadeiramente católico, então haverá ali uma imagem deste grande mistério do qual fala São Paulo, que é a união entre o Cristo e a Igreja. O Cristo amou a Igreja e se sacrificou por ela, morrendo na cruz. Ele não procurou o seu bem, mas o bem da Igreja, a salvação das almas. E a Igreja? Que deve fazer ela? Ela deve respeitar o seu Esposo e por isso guardar os seus mandamentos, sua doutrina, numa palavra, é a Tradição, que não é outra coisa que o depósito da Fé e dos costumes e dos sacramentos, e da estrutura hierárquica da Igreja, confiados por Nosso Senhor aos apóstolos, e dos apóstolos até nós.

A Igreja deve amar seu Esposo Nosso Senhor e defender sua honra. Ela deve dar testemunho, e por isso, no seu seio, se contam tantos mártires. Por que tantos mártires, senão por que a Igreja é fiel? Hoje esta fidelidade se exprime pela defesa da realeza social de Nosso Senhor, que é o remédio ao mal que destroi a sociedade atual.

O mundo avança a passos largos para a vinda do Anticristo que virá, Deus sabe quando, mas ele virá, pois a Escritura não pode ser anulada. Ora, quando virá ele? Ele virá quando o mundo estiver maduro para recebê-lo.

Dizem que hoje, 23 de setembro, haverá uma oração mundial dos judeus pedindo a vinda do Messias. Ora, o Messias dos judeus, quem será ele? Escutemos São Gregório de Nazianzeno nos dizer: “O Anticristo será considerado como Messias pelos judeus”. E Santo Ambrósio: “Os judeus que não quiseram crer em Jesus Cristo, crerão no Anticristo”. Nosso Senhor veio em nome de seu Pai e os judeus não o receberam. O Anticristo virá em seu próprio nome e o mundo o receberá.

Mas a Igreja, por fidelidade a seu divino Esposo, continuará a dar testemunho de Nosso Senhor. Ela dará testemunho por causa da caridade, pois a Igreja é caridade, assim como Deus é caridade. Os amigos têm sempre algo em comum e é isto que eles têm em comum que os une.

Ora, entre Deus e a Igreja, entre Deus e os santos, o que há em comum é Deus Ele mesmo, é a caridade de Deus, pois Deus é caridade. Mas no homem esta caridade não existe só.

Deus é simples, por isso podemos dizer que Deus é caridade, mas o homem é uma criatura e a caridade não resume tudo o que o homem é. No homem, e mesmo quando o homem fala de Deus, é preciso detalhar, pois no homem é preciso muitas coisas, onde em Deus há uma só que encerra tudo o que Deus é, na unidade da sua essência divina. Por isso, no homem a caridade tem que estar acompanhada da Fé, da Esperança e de todas as virtudes.

Daí a importância do combate doutrinal. Sem a Fé não há pureza do coração. Sem a Fé não há integridade no homem. Sem a Fé não há caridade. Amemos, pois, a Deus com Fé viva, ou seja, a Fé vivificada pela santa caridade. Fé, Esperança e Caridade.

E há o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro. E por que semelhante? Porque o amor do próximo está fundado no amor de Deus. O que amo no próximo é Deus. Devo amar o que há de Deus no próximo e se Deus não está nele pela graça, devo amá-lo para que Deus venha a estar nele.

Por que os missionários amaram e deram suas vidas por povos pagãos que muitas vezes chegaram a matá-los? Que amavam os missionários nestes povos? Eles amavam estes povos para que Deus viesse habitar o coração destes homens.

A caridade fraterna está sempre fundada em Deus. Deus presente no próximo ou Deus que pode vir a estar presente no próximo. Deus é, pois, o objeto próprio da caridade. Amor divino, vida divina em nós, vida que fez os santos, que fez e faz a paciência dos santos, a generosidade dos santos, a fidelidade, a mortificação, a magnanimidade, e tudo o mais nos santos.

Hoje Nosso Senhor nos propõe esta virtude, a rainha das virtudes. “Se fomos feitos para amar”, dizia Santa Teresinha, “amemos, pois”. Mas amemos com a verdadeira caridade, pois nada mais abominável do que aquilo que vemos hoje, que é a falsificação da caridade. Amar hoje é uma palavra lançada no esgoto. A caridade é a mais incompreensível das virtudes. E, no entanto, ela é a mais necessária. “A caridade é minha espada, com ela eu expulsarei os inimigos do reino”, dizia ainda a Santa Teresinha do Menino Jesus.

Empunhemos esta espada que empunharam os Doutores, os mártires, os santos soldados que como Santa Joana D’Arc souberam combater com uma espada na mão e a caridade no coração.

Algumas pessoas pensam que a vinda de Dom Williamson ao mosteiro foi um ato com tintura revolucionária. Eu creio que estas pessoas se equivocam sobre o que é a virtude e especialmente sobre o que é a caridade. Nem Dom Lefebvre, nem Dom Williamson foram de leve revolucionários. Eles foram combatentes que tiveram que tomar medidas que chocaram a muitos. Mesmo Dom Antônio de Castro Mayer ficou chocado quando Dom Lefebvre resolveu em 1976 a ordenar padres contra a vontade de Paulo VI.

Para um observador mal informado, este ato poderia passar por rebeldia, desobediência, espírito um pouco revolucionário. E, no entanto,…

Hoje se passa algo semelhante. Mas é compreensível que alguns se inquietem e não entendam. De fato, a situação é complicada. Onde encontrar a luz, a salvação? No exercício da caridade para com Deus, no comércio íntimo com Deus, na oração, especialmente a oração mental, lá que Deus se comunica à alma no silêncio da contemplação.

Procuremos a Deus, sejamos almas de oração e nós teremos o instinto da verdade, pois quem está sempre em contato com Deus está sempre em contato com a verdade, pois Deus é verdade, como Ele é caridade.

Que Nosso Senhor nos ensine todas estas coisas no silêncio e na oração. Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

Arsenius • 17 de outubro de 2017


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