Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 19º Domingo depois de Pentecostes (sem data)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
XIX Domingo depois de Pentecostes (sem data)

No profeta Oséias lemos “vos darei reis no meu furor”. Hoje vemos se realizar esta palavra da Sagrada Escritura. Nas eleições de hoje, quem vencerá? Quem nos será dado para nos governar?

“Vos darei reis no meu furor”. Sim, Deus nos castiga dando-nos governantes, ou melhor, permitindo que homens que nos governam sejam homens de espírito pervertido, que trabalham em nos afastar de Deus e de sua graça.

Mas por que isto? Por que este castigo terrível? A resposta está na parábola de hoje. Nela está resumida a história universal, a história de todos os povos, a história do mundo. “O reino dos Céus é semelhante a um rei que quis celebrar as núpcias de seu filho”. O reino dos Céus, eis aí a razão de ser de nossa existência. Deus nos criou para o reino dos Céus. O rei deste reino é Deus Pai, e o filho cujas núpcias ele quis celebrar é o Verbo Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que se uniu à nossa natureza humana.

Ora, em Nosso Senhor há duas naturezas, mas uma só pessoa. São duas naturezas, a divina e a humana, unidas na única pessoa do Verbo, que é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

E onde se fez esta união? No seio da Virgem Maria.

Essas núpcias são ainda a união de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Igreja, ou seja, a união de Nosso Senhor com cada um de nós.

E como se fez esta união? “Te desposarei na Fé”, diz o profeta Oséias.

Mas a parábola continua. O rei envia os seus servos para chamarem os convidados. Quem são esses servos e quem são esses convidados? Os convidados, os primeiros convidados, são os judeus, o povo judeu. E os servos que convidam o povo judeu são os patriarcas que primeiro chamaram o povo judeu. Mas este não quis vir. Então o rei envia novos servos, que são os profetas, e depois os apóstolos, e depois os sucessores dos apóstolos.

E o que disseram os servos? “Tudo está pronto: vinde às bodas”. Tudo está contido nas Escrituras. “A lei de Deus é imaculada”, diz o salmo, “e converte as almas”. “Vinde”, diz o livro dos Provérbios, ‘comei o meu pão e bebei o meu vinho que eu preparei para vós”. “Tudo está pronto” significa “a minha graça vos é oferecida  e com ela obtereis tudo, com ela tereis a vida eterna”.

O que responderam os convidados? “Eles, porém,” diz o Evangelho, “não fazendo caso, foram-se um para sua casa de campo, outro para o seu negócio e ainda outros prenderam-lhe os servos e depois de os terem ultrajado, mataram-nos”. A casa de campo que em alguns textos está designada como a vinha significa a glória humana. O negócio significa a avareza. Os que foram mortos são os profetas e os apóstolos que morreram nas mãos dos convidados, que foram os judeus.

Assim fizeram com os servos. Assim fizeram com Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo. Eles O mataram pregando-O na cruz.

“Então, o rei encolerizou-se e mandou os seus exércitos e exterminou aqueles homicidas pondo fogo à sua cidade”. Quando se deu isto? Quando Tito e Vespasiano cercaram Jerusalém e a cidade foi incendiada, e seus habitantes passados ao fio da espada.

Que fez então o rei? Ele disse aos seus servidores: “As bodas estão preparadas, mas os convidados não foram dignos. Ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos e a quantos encontrardes, chamar para as núpcias”. Esta foi a hora da vocação dos gentios. O povo judeu, tendo recusado Nosso Senhor, os apóstolos irão por toda parte chamando os pagãos.

“Segure o que tendes”, diz o Apocalipse, “para que outro não te arrebate a coroa”.

“Pelo pecado dos judeus a salvação veio para os gentios”, diz a Escritura em Atos XIII, 40.

Grande mistério este que ultrapassa nossa compreensão, mas que será mais claro quando o povo judeu se converter ao catolicismo. Então nós receberemos um grande aumento de graças, mas o começo da pregação aos pagãos se deu quando os judeus recusaram-se a tomar parte nas bodas das quais fala o Evangelho de hoje, ou seja, quando eles recusaram a graça que veio por Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Ide, pois as encruzilhadas dos caminhos e a quantos encontrardes chama para as núpcias”. Que encruzilhadas dos caminhos são essas? Os caminhos são os dogmas que nos conduzem a Nosso Senhor. As encruzilhadas são os erros dos pagãos que não sabem para onde ir. É preciso chamá-los e pô-los no caminho da Verdade para que encontrem a graça dos sacramentos e da Fé e assim se salvem. “E a quantos encontrardes”, isto é, a todos.

“Ide e ensinai a todas as nações”, disse Nosso Senhor aos apóstolos antes da Ascensão. E a sala do festim ficou cheia de convidados e nela se encontravam bons e maus. Os mais aí estavam para que se tornassem bons: são maus porque não amam a Deus; estão na sala do festim para receberem a graça da Fé católica.

Pela Fé estão dentro da Igreja, mas pelo pecado estão fora dela. Pela Fé fazem parte do festim, pelo pecado mortal não saboreiam os manjares do festim.

“Então entrou o rei para ver os que estavam à mesa”. Então quando? Quando vier o dia do juízo que são dois: o juízo particular e o juízo final.

“E ele viu ali um homem que não trazia a veste nupcial”. Que veste é essa que falta a este homem? Que significa esta veste nupcial? Ela significa Nosso Senhor Jesus Cristo. “Nós que somos do Cristo, revistamo-nos do Cristo”, diz São Paulo em Romanos XIII, 14.

“Todos os que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo”, lê-se na epístola aos gálatas. Nós devemos estar revestidos de Nosso Senhor pela caridade e o amor, como Jacó que estava revestido com as roupas de Esaú e só assim pôde receber a benção de seu pai Isaac.

Isaac representava Deus Pai. As roupas de Esaú representavam Nosso Senhor Jesus Cristo, cujos méritos nos são aplicados, e Jacó representa cada um de nós, se estivermos em estado de graça. Caso contrário, o Pai nos dirá: “Amigo, como entraste aqui, não tendo a vestimenta nupcial?”.

E o homem ficou calado, pois como está dito no livro de Jó: “Se eu quisesse discutir com ele, eu não teria o que responder”. E por quê? Porque o pecador não tem razões para pecar. Mesmo que ele se diga “mas eu não podia fazer de outra maneira”, ele verá que isto é mentira. O pecador não tem, ninguém tem razões para ofender e desobedecer a Deus e à sua lei.

Então virá a sentença, que será um tríplice castigo. Os pés serão amarrados porque ele não poderá mais voltar atrás e se arrepender e fazer o bem. As mãos serão amarradas porque não poderá fazer nenhuma boa ação.

“Aí haverá choro e ranger de dentes”. Choro por causa da tristeza, mas esta tristeza não conduzirá à humildade, mas sim à ira e por isso os condenados rangerão os dentes. Rangerão os dentes com impaciência e soberba. E Nosso Senhor conclui dizendo “porque muitos serão chamados e poucos os escolhidos”. “Sim, estreito é o caminho que conduz à vida e poucos são os que o encontram”.

Convidados foram os judeus, convidados foram todos os povos, convidada foi a nossa nação, convidados fomos nós e o que vemos? Os judeus incentivando e inspirando os piores inimigos da Igreja. As nações outrora católicas renegando a Fé de seu batismo. O Brasil se lançando nos negócios, nos prazeres, nos braços dos socialistas, comunistas e maçons, abandonando a Fé, condição sine qua non desta união de Nosso Senhor com nossas almas.

E nós, como respondemos ao chamado do rei que quis celebrar as núpcias de seu filho? E nós, como responderemos ao convite que nos foi feito? Como estudamos a doutrina, como recebemos os sacramentos, como escutamos os enviados de Deus?

Que o temor do juízo do pai de família nos faça guardar com grande cuidado e zelo a graça que nos foi feita e que a caridade nos faça levar aos outros a boa nova da salvação para que muitos dos que jazem nas sombras da morte venham para a sala do festim, que é a Igreja Católica. Que pela intercessão de Nossa Senhora, encontrem a graça neste mundo e a vida eterna no outro. Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

Arsenius • 17 de outubro de 2017


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