Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 21º Domingo depois de Pentecostes (2012)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
XXI Domingo depois de Pentecostes (2012)

 

Um rei quis acertar as contas com seus servos. Quem é este rei senão Deus? Quem é este servo senão cada um de nós? E por que o rei aceita os pedidos daquele que lhe devia muito e não só dá o que ele pede, mas muito mais do que ele pede?

O rei lhe perdoa toda a dívida, quando ele só pedia que tivesse paciência e ele tudo pagava. Por quê? Voltemos nossos olhares para o Calvário. Que vemos aí? Aí vemos um homem, o Homem-Deus, Nosso Senhor, oferecer ao Pai um sacrifício. Este sacrifício é um sacrifício propiciatório. Que significa isto? Isto significa que este sacrifício torna Deus propício, isto é, favorável. Favorável a quem? Ao pecador.

Nosso Senhor, oferecendo um sacrifício propiciatório no Calvário em nosso favor, fez com que o rei perdoasse toda a dívida do servo que somos nós. Caso contrário, nós seríamos vendidos, ou seja, entregues ao domínio de outro e este outro é o demônio, é a carne, é o mundo. É, sobretudo, o demônio, que exerceu seu poder sobre os homens a ponto de dizer a Nosso Senhor na tentação do deserto: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.

Que tudo é esse, senão os seus escravos? Assim o rei havia determinado que aquele servo devia ser vendido, ele, sua esposa, seus filhos e tudo o que ele tinha. Eis aí o que aconteceu com Adão e seus filhos, mas o Calvário vem mudar o curso da história.

O rei, então, perdoa ao servo, o qual mal havia saído dali encontrar um companheiro que lhe devia uma pequena quantia. Este servo exige o pagamento imediato, e não recebendo satisfação, o pega pelo pescoço e sufocando-o grita: “Paga o que deves!”. E o outro lhe faz a mesma súplica, que o primeiro havia feito ao rei. Mas o orgulhoso, esquecendo que ele também fora perdoado, não aceita demora alguma e põe o seu irmão na cadeia. Eis o que os homens fazem com seus semelhantes. Quem não conhece casos de morte dos que não pagaram suas dívidas no mundo da droga, mesmo fora dele?

É a lei do cão. É a lei do mundo, deste mundo que rejeita o sacrifício propiciatório de Nosso Senhor.

Consideremos mais detidamente este sacrifício do Calvário que se renova a cada dia em nossos altares e que será um dia objeto de uma fatal proibição por parte dos inimigos de Nosso Senhor.

“Fostes resgatados por um alto preço”, nos diz São Paulo. “Sem efusão de sangue não há remissão dos pecados”, diz ainda o mesmo apóstolo. Nós não fomos resgatados a preço de ouro ou de prata, mas pelo sangue. Fora do Sangue de Nosso Senhor, fora de seu sacrifício, nós não podemos nada, pois nosso destino, se recusarmos o Sangue de Nosso Senhor, é o de pertencermos ao demônio.

Ora, os modernistas querem anular a eficácia deste sacrifício. Eles dizem que não foi o sacrifício de cruz que nos valeu a salvação. A salvação foi um simples ato de passar a borracha sobre o débito de nossa conta.

Tão simples quanto isto: você devia tanto… pois bem, não deve mais nada.

Deus podia ter agido assim, mas não o fez. Nossa redenção não foi um simples ato de “vamos esquecer tudo isto”. Não, nossa redenção foi através de um sacrifício, o sacrifício do Calvário, que tem 4 fins:

Adoração;

Propiciação;

Ação de graças e

Impetração.

Impetração significa pedir, pedir novas graças.

Ora, do alto da Cruz Nosso Senhor não só obteve o perdão do Pai, mas nos deu o exemplo de como agir em relação ao próximo. Ele estava carregado com todos os nossos pecados. Ele era este homem que devia tanto ao rei porque havia se tornado nosso avalista. E encontrando um homem que o insultava dizendo: “Se tu és o Cristo, desce da cruz e acreditamos em ti”. Ele não agiu como o homem da parábola. Ele não o pôs na cadeia, nem o cobriu de insultos, mas Ele disse: “Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem”.

Santo Estevão ao morrer apedrejado disse: “Senhor, não lhes imputai este pecado”. Eis aí os discípulos de Nosso Senhor. Eles aprenderam a lição. Eles imitam o Mestre e nós devemos fazer o mesmo.

Para isto, o primeiro passo me parece ser o de nos lembrarmos daquilo que o rei disse ao mau servo: “Servo mau, não te perdoei toda a tua dívida porque me pediste?”

Lembremo-nos sempre da dívida que foi perdoada por causa do Sangue de Nosso Senhor. “Não encontrarás repouso a não ser no Sangue”, diz Santa Catarina. Sim, é preciso ter sempre presente diante dos olhos de nossa alma este Sangue sem o qual nós estaríamos sob o domínio do demônio.

Quando se lês, quando se escuta, quando se presencia, por pouco que seja, a maldade do forte que o oprime o fraco, quando se aprofunda o que seja estar a mercê de um inimigo que lhe fura os olhos, lhe corta os membros, lhe crava um punhal no corpo e, pior ainda, que lhe torna quase impossível elevar a alma para Deus através de mil estratagemas, quando sentimos pesar sobre uma pessoa, uma família, uma cidade ou todo um povo o peso da tirania a mais bárbara, aí começamos a ter uma ideia do que possa ser o inferno.

Ora, Nosso Senhor nos livrou disto e nos disse para fazer o mesmo com o nosso próximo, perdoando-lhe as ofensas que ele possa nos fazer. Ora, se nós não perdoarmos do fundo do coração aqueles que nos ofendem e que deste modo, contraem uma dívida para conosco, como poderemos ser perdoados de nossas ofensas?

Um dia, um Padre do deserto recebeu uma queixa de um discípulo, que lhe disse: “O outro irmão me ofendeu de novo. Não posso perdoá-lo mais e me vou embora”. O Padre do deserto, vendo que não havia remédio, disse-lhe: “Está bem, mas antes de partir reze comigo uma vez o Pai Nosso”. E ambos começaram. Ao chegar nas palavras “Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores”, o Padre do deserto disse: “NÃO perdoai as nossas dívidas assim como nós não perdoamos os nossos devedores”. O irmão quis corrigi-lo, mas o Padre do deserto lhe disse: “Não, irmão, é preciso rezar com palavras verdadeiras. Como o senhor não quer perdoar, dize: “Não perdoais as nossas dívidas…” O irmão entendeu, perdoou e ficou.

Façamos o mesmo. Saibamos perdoar os nossos devedores. Mas que isto não seja pretexto para nos furtar ao dever de combater os inimigos de Nosso Senhor, pois se podemos e devemos perdoar aos nossos devedores, não devemos de modo algum perdoar os que não só ofenderam, mas que continuam a ofender a Nosso Senhor, como fazem os modernistas, os maçons, e todos os inimigos da cruz de Nosso Senhor. Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B

Arsenius • 29 de outubro de 2017


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