Mosteiro da Santa Cruz

Mosteiro beneditino tradicional em Nova Friburgo/RJ

Sermões: 22º Domingo depois de Pentecostes (2006)

Sermão proferido por Dom Tomás de Aquino OSB. Desejou-se, tanto quanto possível, conservar em sua escrita a simplicidade da linguagem oral.


PAX
XXII Domingo depois de Pentecostes (2006)

Hoje falaremos do Purgatório, pois estamos ainda nesse tempo que segue a comemoração dos fiéis defuntos e no qual podemos ganhar indulgências para as almas do Purgatório.

Primeiramente, devemos crer com toda a nossa Fé na existência do Purgatório. O Concílio de Trento declara que deve ser excomungado todo aquele que negar as penas do Purgatório. Ele diz que mesmo depois de recebido o perdão dos pecados, nos resta a pagar uma pena devida ao pecado e que esta pena é paga neste mundo ou depois da morte no Purgatório. Assim é, de certa forma, mais fácil obter a remissão da culpa do que da pena.

A remissão da culpa se obtém num instante ao se receber a absolvição do padre no confessionário, enquanto a remissão da pena é longa e laboriosa.

Quantos santos passaram suas vidas na penitência para pagar a culpa de alguns anos no pecado, como Santa Margarida de Cortona e tantos outros.

Ora, aqueles que nesta vida não pagaram suficientemente o que deveriam à justiça divina deverão fazê-lo no Purgatório. Assim, Judas Macabeu, vendo que alguns de seus soldados mortos na batalha haviam escondido debaixo de suas vestes objetos consagrados aos ídolos e proibidos pela lei judaica, rogou a Deus que esquecesse este pecado de seus homens mortos no combate. E a Sagrada Escritura acrescenta: “Santo e salutar pensamento este, o de orar pelos mortos. Eis por que ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos para que fossem livres de seu pecado”.

Se não houvesse Purgatório, seria em vão que Judas Macabeu teria oferecido esses sacrifícios, pois quem está no Inferno não pode receber nenhuma ajuda e quem está no Céu não precisa de ajuda.

E São Paulo nos ensina que aqueles que misturam nas obras de Deus as preocupações do amor próprio, poderão ainda ser salvos, mas passando pelo fogo. E Santa Teresinha, interrogada se uma certa madre de seu convento seria salva, respondeu: “Sim, mas pelo fogo”.

Assim, ficando estabelecida a existência do Purgatório, vejamos o que aí se sofre. No Purgatório se sofre sobretudo duas penas, as quais são acompanhadas de muitas outras. As duas penas principais são a privação da visão beatífica e a pena do fogo.

As almas após a morte compreendem perfeitamente que Deus é o bem perfeito e infinito, o bem único de suas almas e fonte de toda consolação.

Pois bem, neste momento em que normalmente o sofrimento da morte deveria ser compensado pela visão de Deus, a alma é mantida à distância, relegada às trevas do Purgatório, no meio de um fogo terrível. O sofrimento da alma é indizível, vendo-se assim privada de Deus por sua culpa e por um tempo do qual ela ignora a duração.

A segunda pena é justamente a pena do fogo ou pena dos sentidos. As almas são atormentadas não só pela privação da visão de Deus, mas também por penas aflitivas das quais a principal é o fogo. Essas penas têm como finalidade a de purificar as almas da pena devida aos pecados mortais perdoados mas não ainda expiados e aos pecados veniais.

A essas duas penas se acrescentam todas as angústias das almas ao considerarem tudo o que elas perderam ao desprezarem a graça divina quando estavam nesta vida.  Tudo isso torna o estado dessas almas extremamente digno de pena, pena que é, no entanto, suavizada pela caridade que arde em seus corações e pela doce esperança que as faz suportar com paciência esses tormentos.

Após vermos a existência e as penas do Purgatório, vejamos como nós podemos auxiliar essas santas almas. Há, sobretudo, quatro meios:

O santo sacrifício da missa;

As orações;

As boas obras, especialmente, as esmolas e, enfim;

As indulgências.

São Jerônimo ensina que a cada missa celebrada com devoção saem muitas almas do Purgatório. A missa é, com efeito, o principal meio de socorrer as almas do Purgatório, pois nela são oferecidas ao Pai as satisfações de valor infinito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso não devemos nunca deixar de mandar dizer missas de sétimo dia e de aniversário pelos nossos defuntos e muito mais se isso nos for possível. Procuremos, ao menos, oferecer nossas comunhões por eles.

Em seguida, há a oração, que está ao alcance de todos. As almas do Purgatório não podem rezar por elas mesmas, mas nós podemos por elas. As almas do Purgatório estão submissas à justiça divina, mas nós podemos fazer intervir em seu favor a misericórdia.

Deus, por assim dizer, deixou em nossas mãos a Sua misericórdia, fazendo-nos instrumentos dela, enquanto que o fogo do Purgatório é instrumento de Sua justiça. Rezemos, pois, por elas.

E para que nossa oração tenha mais eficácia, recorramos às santas indulgências, que são uma aplicação dos méritos da Igreja a uma alma ou várias almas. O que nossa oração não pode merecer, os méritos de Nosso Senhor e dos santos o podem. Não hesitemos, pois, a recorrer a eles, utilizemos também a água benta, que age como as indulgências, pois seu valor vem das orações da Igreja, que são sempre eficazes. Ao aspergir nosso quarto ou ao fazermos o sinal da cruz, derramemos algumas gotas pela intenção das almas do Purgatório, como nas cerimônias da Igreja, que benze não só os corpos, mas na ausência deles, o que pode lembrar a sua presença.

Enfim, há ainda as boas obras, os nossos próprios sofrimentos e as esmolas. “Não há dúvida”, dizia Santo Agostinho, “de que as orações da Igreja, principalmente o sacrifício da santa missa e as esmolas dos fiéis, ajudam os defuntos a serem tratados mais docemente do que mereciam os seus pecados”.

Para terminar, lembremo-nos de que essas almas são santas e, portanto, cheias de verdadeira gratidão para com os que as ajudam. Se elas não podem rezar por elas, elas podem rezar por nós.

“Se soubéssemos quão grande é o poder das santas almas do Purgatório”, dizia o Santo Cura d’Ars, “e quantas graças que por sua intercessão podemos obter de Deus, não seriam elas tão esquecidas! Oh! Oremos muito por elas, para que elas peçam muito por nós”.

Lembremo-nos de que nós temos também muito a pagar e de que necessitamos muito de auxílio. Ajudemo-nos uns aos outros fazendo amigos entre as almas do Purgatório. Que há de mais belo do que as amizades fundadas na Fé, na Esperança e na Caridade? Elas são abençoadas por Deus, que as suscita e as conserva para a eternidade.

Possamos nós rezar com fervor pelas santas almas do Purgatório e sermos ajudados por elas neste mundo e no outro. Assim seja.

Dom Tomás de Aquino O.S.B.

 

Arsenius • 5 de novembro de 2017


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